O dilema do Banco Central: controlar inflação sem sufocar o crescimento em 2025
Com a Selic em 10,75% e o PIB crescendo acima do esperado, o Copom enfrenta a pressão de dois lados: inflação ainda acima da meta e uma economia que não quer desacelerar. O que esperar dos próximos meses.
Quando o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne em 18 de junho, vai ter pela frente um cenário que não é exatamente novo, mas que ficou mais complicado nos últimos meses: inflação acima da meta, crescimento econômico surpreendentemente robusto e um mercado que não sabe se quer juros mais altos ou mais baixos.
A taxa Selic está em 10,75% ao ano desde março. O IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,2% em maio — acima do teto da meta, que é de 4,5% para 2025. O PIB do primeiro trimestre cresceu 1,4% em relação ao trimestre anterior, bem acima das projeções de 0,8%. O mercado de trabalho está aquecido: desemprego em 6,8%, o menor desde 2014.
Taxa Selic atual (a.a.) — definida pelo Copom em março de 2025. Próxima reunião: 18 de junho.
O problema da inflação persistente
O núcleo da inflação — que exclui alimentos e energia, itens mais voláteis — está em 3,8%, dentro da meta. Mas o IPCA cheio continua pressionado por serviços, especialmente alimentação fora do lar, aluguel e saúde. Esses são componentes que respondem lentamente à política monetária, porque dependem menos de crédito e mais de dinâmica de mercado de trabalho.
Em outras palavras: subir juros resolve parte do problema, mas não resolve tudo. E subir demais pode desacelerar uma economia que, por enquanto, está indo bem.
"O BC está num corredor estreito. Se apertar demais, joga fora o crescimento. Se não apertar, perde credibilidade. Não tem resposta fácil." — Economista-chefe de banco de investimento, que pediu anonimato
O que o mercado espera
O consenso do mercado, segundo o Boletim Focus do Banco Central, é de Selic estável em 10,75% até o final de 2025, com possível corte de 0,25 ponto percentual no início de 2026. Mas esse consenso é frágil: qualquer surpresa negativa no IPCA de junho ou julho pode mudar o cenário.
O risco fiscal também pesa. A revisão da meta fiscal anunciada pelo governo — que pode resultar em déficit de 0,7% do PIB — aumenta a percepção de risco e pressiona o câmbio, o que por sua vez pressiona a inflação de bens importados.
O que observar nos próximos meses
Três indicadores vão definir o rumo da política monetária até o final do ano: o IPCA de junho e julho (que vai mostrar se a inflação de serviços está cedendo), o resultado fiscal do governo no segundo trimestre (que vai indicar se a trajetória da dívida está sob controle) e o câmbio (que depende tanto do cenário doméstico quanto do Federal Reserve americano).
Por enquanto, o Banco Central tem mantido um tom cauteloso — nem hawkish nem dovish. É a postura certa para um cenário de incerteza. Mas a janela para manter essa posição sem tomar uma decisão está se fechando.